The broken column, Frida Khalo, 1944

quinta-feira, 31 de março de 2011

Quando não há mais alma a guiar


Quando não há mais alma a guiar,
Não há mais nada a fazer,
A não ser bem esperar
Que se saiba, em breve, morrer!

A solidão é assim: Tamanha!
Quem a conhece como eu
Já nenhum sentimento estranha –
Só o amor de um qualquer deus!

Não há mais ar para respirar
Nem um qualquer coração a bater,
Nada há que viver ou que sonhar
Nem nada para esquecer!

Se as noites são assim amargas,
Que fazer de todos os dias?
Que fazer das histórias que não são contadas
E das luas que são sempre tão frias?

Quando não há que amar,
Nem tão pouco o gostar de si,
Que fazer senão adormecer ao deitar
A cabeça no chão? Assim…

Quando não há mais alma a guiar,
Não há mais nada a fazer,
A não ser bem esperar
Que se saiba, em breve, morrer!

(Vila Verde, 8/3/2011)

(O grito, Edvard Munch, 1893)

terça-feira, 29 de março de 2011

Despida de amores

 O meu amor tem tido tantos amantes
E o meu sentir não atenta a leis nem a juízes!
Se te importasses, contar-te-ia como vivo vestida de amores
(E, se quisesses, mesmo como virgens, seríamos ternamente felizes!):

Hoje estou vestindo o amor branco, mesmo alvo.
É alto e ondulante e maduro companheiro de sabedorias,
Mas só por amor de outra, que não eu, sabiamente se perderia!

Hoje visto-me de amor dançante e negro humor.
Dá-me o beijo (que meu amor não deu!) e sabe ler-me completamente,
Mas não me quer, nem outros amores, que já o coração por aí perdeu!

Hoje uso a veste branca e bem dourada.
É poeta nas palavras que me escreve; povo nas que, secretamente, me diz,
Mas sou apenas uma de suas bailarinas musas, não um de seus amores!

Hoje são castanhas e cinzentas as vestes que me aconchegam.
Pequeno Sansão, chama-me “Dalila, meu amor!” e ama-me perdidamente,
Mas na sua outra vida (essa sim, cruel!) dança com muitas outras!

O meu amor tem tido tantas vestes
E o meu sentir tem vivido mais que as meretrizes!
 Se te importasses, não deixarias que me embalasse nestes amores
E, se quisesses, não teria mais noites assim vestidas e assim infelizes!

Hoje quero despir-me para ti, que és o deus de minhas cores,
És dono do meu arco e és o meu mestre entre tantos pintores petizes!
Meu amor, bastar-me-ias tu, se me quisesses despida de amores
E, nas eternidades, me vestiria com tuas belas íris e seus matizes!

(Vila Verde, 28/03/2011)
     
            (Danae, Gustav Klimt, 1907)

segunda-feira, 28 de março de 2011

És tão maior

Sou barata tonta ou mosca louca quando te vejo
E rodopio à volta de mim ou escondo-me sempre que, por aí, não te sinto!
És tão maior quando quase chocamos nesta dança insana,
Mas porque voz de mulher não queres que tenha, sorrio-te com a alma!

Sou joaninha que voa, voa! (E voaria p'ra Coimbra ou New York, não Lisboa!)
Sou de vermelho e preto pintada, assim vestida, assim sedutora,
E sou abelha dourada, mas de alma negra e aprisionada,
Que te procura em todos os campos, entontecida com tua cor.

Sou pulguinha preta que tanto saltita quando pressente a tua chegada
E sou também formiga cor de ferrugem, sempre para aí a caminhar.
Sou tartaruga enrugada que se arrasta muito, muito devagar
E, por vezes, sou lebre que, se te vê, enlouquece em tantos altos saltos.

Sou lagartixa a quem pisas a cauda (mas disso não te apercebes!)
E sou a cotovia que te chora toda a madrugada e todo o dia!
Sou andorinha solitária que te chama, sempre com a noite vestida
E sou rouxinol tão surdo e tão rouco que, de tão louco, será mudo!

Sou cavalo de fogo, de cor isabel, sempre, por aí, a cavalgar
E sou o porco das pérolas, que poucas tenho e todas perco!
Como és tão maior quando quase dançamos esta dança louca,
Mas porque nem alma de mulher queres que tenha, arranco-a e dou-ta!

(Vila Verde, 27/03/2011)

           
(The invisible sleeping woman, horse, lion, Salvador Dalí, 1930) 

                 

quinta-feira, 24 de março de 2011

Cansei-me em sonos sem sonhos

Cansei-me em sonos sem sonhos
E matei-me mais que os loucos!
Arrastei-me em passos para aí
E ensurdeci-me com músicas por ti!

Consumi-me com feroz sofreguidão
E esgotei-me em gestos de ternura!
Iludi-me com o peso desta fortuna
E perdi-me na vasta imensidão!

Esganei-me em vozes roucas
 E amarrei-me com tamanhas forças!
Engasguei-me com todas as palavras
E enganei-me com promessas ocas!

Alimentei-me com doce ardor
E sufoquei-me em ânsias dementes!
Afoguei-me em lágrimas quentes
E enlouqueci-me com tanta dor!

Pintei-me sem o arco das cores
E quebrei-me em grandes pedaços!
Enforquei-me em nós lassos
E suicidei-me por esses amores!

(Vila Verde, 12/03/2011)

(O sono, Salvador Dalí, 1937)

terça-feira, 22 de março de 2011

Ao espelho


Pedes-me que te esqueça,
Mas isso é pedires-me que adoeça!
Dizes-me que não serves para meu jardim,
Mas tu és o eu em mim!
Afirmas que não te amas,
Mas preenches-me toda a alma!

Olha-me no teu espelho, antes que esmaeça:
Pedes-me que me esqueça?
Dizes que, para ti, não serve meu jasmim?
Afirmas que não me amo?
Não! Vê bem: Tu és, em mim,
A alma e sou, de ti, a gémea!

E para que tudo aconteça
Não peças que te esqueça!
Isso seria olvidar-me algures por aí
E eu já estou muito perdida por aqui!
Há dias em que para ninguém cheiro a jardim
E, olha, há dias em que não me amo!

Não me peças que te esqueça
Porque isso é pedires-me que esmoreça!
Olha-nos no meu espelho: vês como és, também, jasmim?
Vês como és: Completo! – O eu em mim?
Olha-nos: vês a Alma? (Que nunca se desvaneça!)
Minha imagem gémea, não queiras que enlouqueça!

              (Vila Verde, 21/03/2011)         
                                       
              
                    (Adam and Eve, Klimt, 1918)

quarta-feira, 16 de março de 2011

Tens um sorriso menino no olhar

Tens um sorriso menino no olhar
E um olhar gigante na mente.
Começas já a sorrir uma vida com olhos de feliz gente!

Tens um olhar morno nesse sorriso
E uma gota de amor como alimento.
Começas já a bebericar a doce vida que há no firmamento!

Tens uma face dúbia, ainda enigmática,
E ares de segredos no semblante.
Começas já a revelar o perfil da vida que anseias de agora em diante!

Tens um pão em cada uma de tuas mãos
E sede de novos vinhos na garganta.
Começas já a beber a boa vida com alma que se agiganta!

Tens uns braços amplos, ainda dobrados,
E neles marcas queimadas das memórias.
Começas já a abraçar o braço da vida plena de histórias!

Tens umas pernas curtas, não redondas,
E com elas te aproximas devagar – ainda te dói!
Começas já a caminhar no mapa da vida uma viagem a dois!

Tens um andar, ainda trôpego, nesse corpo homem.
E nesse movimento sôfrego, que vai e que vem,
Começas já a percorrer a eterna vida que ainda é tão jovem!

(Vila Verde, 15/03/2011)

(Homem andando, Ernesto de Fiori, www.flickr.com)

Naúfragos, depois do mar

Olhaste meus olhos como se visses o sol do dia, depois do mar
– Náufrago perdido e agora em mim encontrado!
Olhei teus olhos como se naufragasse na manhã, depois do sonho
– Náufraga partida e em ti reconstruída!

Namoraste minha ferida e a Frida em mim conquistaste, depois do ontem
– Pintor virgem, em questões de emoção iniciado!
Namorei tua voz em todos os tons da íris e cores do arco, ao pintar
               – Pintora experiente, para ti com alma em exposição permanente!

Tocaste meu cabelo como se acariciasses o céu, depois do sono
– Corpo abandonado e agora em mim acolhido!
Toquei teu cabelo como se me lançasse à terra, mesmo que no Outono
– Corpo dolorido e agora em ti aconchegado!

Beijaste meus lábios como se bebesses o ar fresco, depois da madrugada
– Sôfrego sedento que em mim encontra alento!
Beijei teus lábios como se sorvesse o mar revolto, espreitando da amurada
– Sôfrega ardente que em ti se alimenta!

Abraçaste meus braços como se suspirasses o primeiro sopro, ao nascer
– Menino mendigo que em mim é enriquecido!
Abracei teus braços como se gritasse o último grito de vida, ao morrer
– Menina pobre que em ti é a mais rica!

(Vila Verde, 14/03/2011)

            
        (Paul e Virginie, Escola Francesa, http://fineartamerica.com/)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Manhã que vai entardecendo


Olha para a manhã que vai entardecendo –
 Quantas noites, em vão, esperam as madrugadas!
Olha para a vida que se vai morrendo –
Quantos homens (Ai!) não perderam suas amadas!

Olha para o mar que vai dançando –
Quantos náufragos aí adormecem sem amor!
Olha para o vento que se vai meneando –
Quantas demências aí viajam em redor!

Olha para a noite que se vai dormindo –
Quantos corpos aí se acostumam tão bem!
Olha para a vida que se vai esvaindo –
Quantas mortes aí se enganam, também!

Olha para a terra que vai renascendo –
Quantas ervas aí esganam a bela flor!
Olha para o dia que se vai vivendo –
Quantos mortos aí habitam sem cor!

Olha para a manhã que vai entardecendo –
 Quantas noites, em vão, esperam as madrugadas!
Olha para a vida que se vai morrendo –
Ai! Quantos homens não amam mais suas amadas!

(Vila Verde, 11/03/2011 – terramoto no Japão)


(Metamorfose de Narciso, Salvador Dalí, 1937)

Neste dia há uma morta em festa

Neste dia há uma morta em festa!
Já disse “Amo-te!” e “Adeus!”
Já posso adormecer nesta sexta,
Falta ajoelhar-me e rezar a Deus!

Neste dia banho-me em água sem mel
 E visto-me com uma rota veste.
Pinto-me com venenos ou fel
E tatuo os cabelos, os olhos, toda a face.

Neste dia bebo todo o profano vinho
E não deixo migalhas ao pão.
Emancipo este amor menino
E entrego-me a esta amante solidão!

Neste dia não ganhei nem vã fama.
Sonho o sonho no último sono
E aqueço-me ainda na gélida cama.
É aí que (Sim!) me abandono!

Neste dia da definitiva partida
Escrevi-te todos os poemas de amor,
Dei-te toda a minha efémera vida
E crucifiquei-me (Ai!) como o Senhor!

(Vila Verde, sexta, 11/3/2011)

(Crucifixion (corpus hypercubus), Salvador Dalí, 1954)

sexta-feira, 11 de março de 2011

Banha-me como a chuva arrefece a terra


Banha-me como a chuva arrefece a terra!
Aperta-me como a escuridão cerca a estrela!
Enlaça-me como o arco-íris abraça a serra!

Ilumina-me como o sol paira sobre a vida!
Cobre-me como as nuvens agasalham o céu!
Empurra-me como o vento embala o dia!

Pinta-me como as cores douram a flor!
Ama-me como a lua deseja a madrugada!
Adoça-me como o perfume entontece a dor!

Acompanha-me como a estrela mostra o destino!
Tapa-me como as roupas vestem a mulher!
Aconchega-me como a mãe abraça o menino!

Embala-me como a dança incendeia a festa!
Arrasta-me como o rio enlouquece o peixe!
Afaga-me como a menina agarra a boneca!

Afoga-me como o mar engole a areia!
Aquece-me como o fogo alimenta a Fénix!
Escuta-me como o marinheiro ama a sereia!

(Vila Verde, 7/3/2011)

(www.allrox.com.br:
littlepurplebee d2xg3ny Uma chuva de criatividade)


quinta-feira, 10 de março de 2011

Já vão longas as madrugadas

Já vão longas as madrugadas,
Já percorri todas as estradas,
Não há mais páginas para ler,
Muitas menos as que escrever.

Já olhei todo o firmamento,
Já escrevi longo testamento:
Tudo o que tenho jaz na terra!
Bruxa ou fada, nada sou, pois nada era!

Já pintei de dores todas as cores,
Já amei tantos e grandes amores,
Dancei curtas e longas danças,
Fiz e desfiz todas as tranças.

Suportei eternas fomes e sedes,
Derrubei negros muros e paredes,
Já sofri duros sentimentos,
Já vivi todos os momentos.

Já abracei todos os abraços,
Fui mais forte que brandos laços,
Já amei e matei tanto homem,
Já não vivo outro dia de ontem.

Já beijei tantos doces lábios,
Já escutei tantos inteligentes sábios,
Não conheço mais palavras amargas,
Já vão longas as madrugadas.

Já olhei todo o firmamento,
Já escrevi longo testamento:
Tudo o que tenho jaz na terra!
Bruxa ou fada, nada sou, pois nada era!

(Vila Verde, 7/3/2011)

(Uma noite estrelada, Van Gogh, 1889)

Tenho mais corações para arder

Tenho mais sangue a sangrar
E mais almas a perder.
Tenho mais lágrimas a chorar
E muitas outras águas a verter.
Filhos que não sei gerar
E filhos que não posso ter.
Mais alegrias para olhar
E nenhuma para viver.
Não! Não me mato hoje!
Hoje não é o dia de morrer!

Tenho vestidos para rasgar
E ares doentios para sorver.
Tenho mais angústias a suportar
E muitas outras dores a doer.
Mais sonos sem sonhar
E outras chuvas por chover.
Tenho seres por amar
E mais corações para arder.
Não! Não me mato hoje!
Hoje não é o dia de morrer!

(Vila Verde, 7/3/2011)

(Heart of the humanity, Diversitymakessence, www.artistrising.com)

domingo, 6 de março de 2011

Tango que não danças


Tango que não danças.
Pintura que não pintas.
Palavras que não dizes.
Como me encantas?

Violino que não tocas.
Ária que não cantas.
Imagens que não descreves.
Ainda me encantas?

Dores que não partilhas.
Histórias que não contas.
Escultura que não esculpes.
Assim me encantas?

Sonhos que não sussurras.
Futuro que não antecipas.
Amores que não escreves.
Ainda assim, como me encantas!

(6/3/2011 - Vila Verde)

(Two to tango, Matt Sesow, 2005, in www.sesow.com)


 

Danço a dança já torta


Danço a dança já torta
E canto a canção desafinada!
Pinto a pintura descolorida
E vivo a vida ainda que morta!

Sonho o sonho de sonhar
E olho o olhar de não ver!
Sinto o sentimento de doer
E vivo a vida sem a amar!

Cheiro o cheiro de entontecer
E como a comida de envenenar!
Escuto o escudo a lutar
E vivo a vida a desfalecer!

Escrevo a escrita infiel
E desenho o desenho pequeno!
Bebo a bebida de veneno
E vivo a vida ainda que irreal!

Toco o toque de ensurdecer!
Leio o livro sem páginas
E choro o choro sem lágrimas
E vivo a vida sempre a morrer!

(6/3/2011 - Vila Verde)
(Roots, Frida Khalo, 1943)

Coração não é onde está

Estou na queda de água! - ela cantou -
Na queda de água era e já não sou!
Uma gota de mim já não é em cima!
A um piscar de teus olhos, menina
Já não sou, também!
Em tua mente sou ninguém!
Com teu leve respirar, mais um pouco vai.
 Tenho uma mão aqui e outra que cai.
O meu olho direito ainda está cá,
Mas o esquerdo vive lá.
A perna direita quebrou.
O ar em mim tudo sufocou.
O fígado perdeu a importância.
O pulmão vivia na redundância.
Os olhos apartaram-se.
Os braços afastaram-se.
O nariz perdeu o olfacto,
A minha mão direita o tacto.
O pé esquerdo abandonou a dança.
O cabelo branco não tem trança.
O meu rim direito não é já.
O coração não é onde está.
E o sangue de minha voz
Sangrou da nascente à foz.
E a alma, que dizer dela?
Voou qual rouxinol pela janela!

(6/3/2011 - Vila Verde)

(Cannibalism in Autumn, Salvador, Dalí, 1936)

sábado, 5 de março de 2011

Contam-me sonhos os escritores


Contam-me sonhos os escritores
Em sonetos que me encantam!
Contas-me tu que sonhas o eu, enlaçado
Em tristes laços e lassos nós!

Cantam tenores e baixos
Canções que me apaixonam!
Cantas tu sem tom nem timbre
E não escutas nem coloras minha voz!

Dançam duetos os bailarinos
Com gestos que me embalam!
Danças tu sem passo nem som
E eu danço este slowfox a sós!

Usam palavras os poetas
Em estrofes que me enfeitiçam!
Perdes tu todas as palavras
E não dedicas amores ao Nós!

Apregoam esses amantes noutros libretos
As histórias de quando a sós me visitam!
Pintam mágicos em tantos quadros
(De que tu não conheces cheiros nem pós!)

O arco-íris que nunca ofusco
Com as cores que veste meu ser!
Não sabes tu as eternidades em que busco
Tantas outras belezas para viver!

(4/3/2011 - Braga)

(A queda, fotografia de Isabel Margarida Maia, Berlim, 2005)


sexta-feira, 4 de março de 2011

Meu rio amante só tem uma margem

Meu rio amante só tem uma margem.
Beijos teus beijo-os apenas eu.
Abraços nossos só têm meus braços.
Faço amor com a imagem de ti, pois
O corpo que em mim vive, para ti nada é!

Lágrimas quentes não se evaporam em ti.
Conto-te dores que não sabes existirem.
Agarro tuas mãos a milímetros de distância.
Faço amor com a imagem de ti, pois
O corpo que em mim vive, para ti nada é!

Lágrimas que choro não molham tua face.
A voz que arranha minha garganta em ti é muda.
Mãos que tocam tuas mãos não sentes.
Faço amor com a imagem de ti, pois
O corpo que em mim vive, para ti nada é!

Teus olhos que vejo não acariciam os meus.
Falo-te com voz rouca e ouves um tom surdo.
Arrefeço-me em teus braços, aqui.
Faço amor com a imagem de ti, pois
O corpo que em mim vive, para ti nada é!

(4/3/2011 - Braga)

(Soft construction with beans, Premonition of civil war, Salvador Dalí, 1936)